A apreensão de um macaco bugio conhecido como 'Mochila' pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em São Francisco de Assis, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, provocou uma onda de protestos e mobilização social. O primata, que se tornou um símbolo comunitário e uma figura querida nas redes sociais, foi retirado de seu habitat informal, desencadeando um debate complexo entre a proteção ambiental e o apego da população ao animal.
O 'Mochila': Mais que um Macaco, um Símbolo Comunitário
Conhecido por sua interação inusitada com moradores e animais domésticos, o macaco 'Mochila' ganhou seu apelido pela peculiaridade de subir nas costas das pessoas e até de cães, um comportamento que o tornou famoso na cidade. A população de São Francisco de Assis via o bugio como um verdadeiro mascote, um elemento cultural e imaterial que adornava as árvores locais e encantava a todos com sua presença livre. Sua fama se estendeu para as redes sociais, onde vídeos do animal, inclusive um de 2023 roncando sobre um carro, viralizaram.
A notícia de sua apreensão gerou uma forte comoção. Um abaixo-assinado foi rapidamente organizado pela moradora Maira Tombini, expressando a profunda tristeza da comunidade pela ausência do animal e clamando por seu retorno à natureza. Para os habitantes, a partida de 'Mochila' representou mais do que a remoção de um animal; foi a perda de um símbolo de afeto e parte da identidade local.
A Justificativa do Ibama: Riscos da Domesticação e Maus-Tratos
Em contrapartida à visão da comunidade, o Ibama defendeu a apreensão com base na identificação de um 'processo de domesticação e maus-tratos' por parte de um cidadão residente próximo à praça Independência. O órgão ambiental detalhou que registros em redes sociais indicam que o animal vinha sendo domesticado desde 2020, com fotos postadas dentro de residências e nas costas de cães, evidenciando uma interação inadequada para a fauna silvestre. Essa proximidade perigosa entre o bugio e a população foi um fator crucial para a intervenção.
A situação do 'Mochila' havia se tornado ainda mais crítica em 2024, quando, devido à sua interação com humanos, o macaco foi agredido por populares, chegando a ficar em estado grave, próximo da morte. Este incidente reforçou a percepção do Ibama de que a domesticação, aliada ao acesso irrestrito a áreas públicas, representava um perigo tanto para a segurança do animal quanto para a saúde pública, incluindo o risco de transmissão de zoonoses. O macaco bugio preto (*Alouatta caraya*) é, ainda, uma espécie ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul, e a infração ambiental detectada contribuía para o declínio da espécie, servindo como um mau exemplo para a população.
Após a captura, o Ibama informou que o 'Mochila' foi encaminhado para um mantenedouro conservacionista, um local apropriado para sua reabilitação e bem-estar, longe dos perigos da interação humana direta e de processos de domesticação.
A Posição da Prefeitura e a Necessidade de Educação Ambiental
A Prefeitura Municipal de São Francisco de Assis se manifestou por meio de nota, esclarecendo que a operação de captura foi uma ação exclusiva do Ibama, sem prévia comunicação ao município. A administração local ressaltou não possuir competência legal para intervir em tais ações, reafirmando sua posição de não envolvimento direto na apreensão.
Contudo, o município também revelou ter sido notificado pelo Ibama sob a alegação de não ter promovido ações suficientes de educação ambiental voltadas à proteção da fauna. Diante disso, a Prefeitura declarou que analisará tecnicamente a notificação, adotará as medidas cabíveis e se colocou à disposição para prestar os devidos esclarecimentos. O Ibama, por sua vez, reforçou a importância de o município apresentar e executar um plano de educação ambiental, enfatizando à população a relevância da espécie e a necessidade de permitir que ela viva livremente, sem alimentação ou aproximação humana, especialmente para fins de exploração em redes sociais.
Conclusão: Reflexões sobre Convivência e Conservação
O caso do macaco 'Mochila' em São Francisco de Assis ilustra a complexidade da convivência entre seres humanos e a vida selvagem, especialmente em áreas urbanas e periurbanas. Enquanto a comunidade expressa um apego genuíno e uma conexão cultural com o animal, as autoridades ambientais atuam para garantir a segurança da espécie e da população, combatendo a domesticação e os riscos a ela inerentes. A situação ressalta a importância da educação ambiental como ferramenta fundamental para promover a compreensão sobre o comportamento animal, os perigos da interferência humana indevida e a necessidade crucial de proteger a fauna silvestre em seu ambiente natural, contribuindo para a preservação de espécies ameaçadas como o bugio preto.
Fonte: https://g1.globo.com
