O Rio Grande do Sul enfrenta um cenário alarmante na luta contra a violência doméstica e o feminicídio. Com mais de 12 mil medidas protetivas ativas e cerca de 900 agressores sob monitoramento eletrônico, o estado tem implementado estratégias para conter o avanço da violência. Contudo, dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 revelam uma realidade preocupante: das 52 mulheres assassinadas no Brasil que possuíam medida protetiva de urgência em vigor, 14 eram gaúchas, representando 27% do total nacional. Esse dado ressalta a complexidade do problema e a urgência de uma abordagem multifacetada, conforme destacado pelo governador Eduardo Leite.
Um Cenário de Alerta: Desafios e a Necessidade de Mudança Cultural
Apesar dos esforços de proteção, o número de vítimas fatais no estado neste ano já chega a 20 mulheres, evidenciando que as ações atuais precisam ser aprimoradas e complementadas. Em entrevista, o governador Eduardo Leite reconheceu a profundidade da questão e enfatizou que o combate efetivo à violência de gênero vai além das intervenções legais e policiais, demandando uma profunda transformação cultural. Ele criticou a passividade social diante de conflitos domésticos, que perpetua a ideia de que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’, dificultando a identificação precoce e a denúncia de situações de risco.
Para o governo gaúcho, o grande desafio reside em capacitar o Estado para antecipar e reconhecer os sinais de risco antes que a violência escale. Isso envolve otimizar a estrutura de atendimento já existente, que inclui serviços municipais e a atuação coordenada da Brigada Militar e da Polícia Civil, buscando uma sinergia que permita identificar os casos mais cedo e oferecer proteção eficaz e integrada às vítimas.
Estratégias de Proteção e Monitoramento Ativo
O Rio Grande do Sul tem investido em ferramentas para proteger as vítimas e vigiar os agressores. Atualmente, o estado mantém 12 mil medidas protetivas de urgência ativas, um número que reflete a vasta demanda por segurança. Paralelamente, o monitoramento eletrônico se estabelece como uma ferramenta crucial: mais de 900 agressores são acompanhados por tornozeleiras eletrônicas, visando garantir o cumprimento das restrições impostas. O governo sinalizou a disposição de expandir essa rede de monitoramento, caso a demanda e a necessidade de segurança assim o exijam.
Lacunas na Cobertura de Serviços e a Busca por Qualificação
Apesar das iniciativas, um novo mapa da rede de enfrentamento à violência contra a mulher, lançado pelo Ministério Público do RS, revelou ‘buracos’ significativos na cobertura de serviços especializados. Regiões como o Litoral Norte e o Vale do Paranhana, por exemplo, não dispõem de Delegacias da Mulher, o que dificulta o acesso a um atendimento específico e qualificado. O governo reconhece que, dada a dimensão do estado e seus 497 municípios, não é viável instalar uma delegacia especializada em cada localidade. A estratégia, portanto, foca na qualificação do atendimento em todas as delegacias e postos de serviço, independentemente da existência de uma unidade especializada, para assegurar que todas as vítimas recebam a atenção necessária.
Intervenção Direcionada ao Agressor: Prevenção da Reincidência
Além de proteger a mulher, as autoridades gaúchas buscam ‘ir para cima do agressor’ com foco na prevenção da reincidência. Essa abordagem proativa inclui o desenvolvimento de programas de acompanhamento e intervenção. O governo tem implementado grupos reflexivos e oferecido atendimentos psicológicos para homens identificados como agressores, abrangendo casos de violência física e psicológica. O objetivo é trabalhar na raiz do problema, promovendo a mudança de comportamento e diminuindo as chances de novas ocorrências de violência.
Canais de Denúncia e Rede de Apoio no Rio Grande do Sul
A denúncia é o primeiro passo para quebrar o ciclo da violência. O Rio Grande do Sul oferece múltiplos canais para que vítimas e testemunhas possam buscar ajuda:
Para ocorrências em andamento, onde a vida da vítima está em risco imediato, o contato deve ser feito com a Brigada Militar pelo telefone <b>190</b>.
Em casos de violência já consumada, a vítima pode procurar a Delegacia da Mulher ou qualquer delegacia de polícia para registrar um Boletim de Ocorrência e solicitar medidas protetivas de urgência. Para maior comodidade e segurança, também é possível realizar esse registro e o pedido de medida protetiva pela <b>Delegacia Online</b>.
A <b>Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180)</b> funciona 24 horas por dia e oferece acolhimento e orientações. A <b>Defensoria Pública</b>, por sua vez, presta assistência jurídica gratuita e informações sobre direitos, podendo ser contatada pelo número <b>0800-644-5556</b>.
Adicionalmente, o ‘sinal de socorro’, um gesto manual discreto criado durante a pandemia por uma fundação canadense, permite que a vítima peça ajuda silenciosamente, sem alertar o agressor.
O esforço contínuo para enfrentar a violência contra a mulher no Rio Grande do Sul exige não apenas aprimoramento das estruturas existentes e a expansão do monitoramento, mas também uma mudança profunda nas atitudes sociais. A combinação de proteção à vítima, intervenção qualificada junto ao agressor e a ampliação do conhecimento público sobre os canais de denúncia são pilares essenciais para construir uma sociedade mais segura e igualitária, onde a vida e a dignidade das mulheres sejam plenamente respeitadas.
Fonte: https://g1.globo.com
