O diagnóstico de câncer infantil é um divisor de águas, redefinindo por completo a rotina familiar, os planos para o futuro e a própria perspectiva de vida. Em Porto Alegre, no entanto, a angústia e a incerteza que acompanham essa jornada dolorosa foram transformadas por um grupo de mães em uma poderosa rede de apoio. Unidas pela experiência mais desafiadora que se pode imaginar, elas construíram um santuário de força compartilhada, oferecendo acolhimento, sustentação e inspiração para seguir em frente em meio ao ciclo incessante de hospitais, exames e tratamentos prolongados.
A Ressignificação da Dor Pessoal em Força Coletiva
O impacto inicial do diagnóstico pode ser devastador, como relatado pela professora Daniela Oppelt, que descreve a sensação de 'cair em um buraco' ao receber a notícia sobre seu filho Vicente, então com nove anos. O menino foi diagnosticado com osteossarcoma de alto grau, um tumor ósseo agressivo que já comprometia 23 centímetros de seu fêmur, exigindo dez meses de quimioterapia intensiva e hospitalização contínua. A experiência, que a levou 'muito perto da perda', tornou-se também a fonte de sua inabalável resiliência, inspirada na luta de Vicente e no amor de sua família.
Maternidade em Extrema Resiliência: Histórias de Superação
A trajetória de outras mães na rede reflete uma resiliência ainda mais profunda. Clarissa da Rosa, que conheceu Daniela no Instituto do Câncer Infantil (ICI) durante o tratamento de Vicente, carrega consigo a marca de perdas irreparáveis, tendo perdido sua primeira filha ainda na infância. Seus outros dois filhos também enfrentaram condições de saúde delicadas. Sua filha Sophia, hoje com 11 anos, foi diagnosticada aos três com um sarcoma de Ewing, um câncer raro no crânio, passando por cinco cirurgias e inúmeros protocolos de tratamento, uma batalha contínua que nunca permitiu à família se distanciar do ambiente hospitalar. Clarissa define sua 'profissão' de forma simples, mas com um peso imenso: 'mãe', um título que transcende o vínculo biológico para ela.
O Oncofriends: Um Refúgio para a Saúde Mental
Ciente da exaustão física e emocional imposta pelo tratamento dos filhos, Clarissa da Rosa fundou o grupo 'Oncofriends'. Esta iniciativa nasceu da convicção de que o cuidado com a saúde mental das mães é uma prioridade, sendo melhor cultivado na companhia de outras que compartilham a mesma jornada. A psicóloga Roberta Rodrigues, que acompanha essas famílias, corrobora a importância da amizade e do apoio mútuo, destacando a imensa força que essas mães demonstram e transmitem diariamente. O grupo se tornou um espaço vital de acolhimento, um 'respiro' essencial em meio à dor, onde a experiência compartilhada se transforma em suporte inestimável.
Solidariedade que Gera Renda e Esperança
A aliança entre essas mães vai além do apoio emocional, traduzindo-se em ações práticas de solidariedade. A cada dois meses, cerca de 15 famílias se reúnem em uma feirinha organizada em um espaço gentilmente cedido pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Neste evento, elas comercializam uma variedade de produtos, como lanches, artesanatos e velas aromáticas. Esta iniciativa tem um duplo propósito: proporcionar um momento de convívio e, crucialmente, gerar uma renda doméstica complementar. A dona de casa Núbia Freitas, por exemplo, vende pizzas que fazem sucesso, explicando que esta é uma forma de garantir recursos financeiros, uma vez que a dedicação integral ao tratamento dos filhos muitas vezes impede que essas mães mantenham empregos formais fora de casa.
Um Vínculo Indestrutível que Transforma
A união dessas mães de Porto Alegre demonstra a extraordinária capacidade humana de transformar a adversidade em um motor de solidariedade e resistência. O que começa como uma dor individual e avassaladora, rapidamente se converte em uma força coletiva que ampara, empodera e inspira. Elas não apenas enfrentam a doença, mas redefinem a maternidade sob o prisma da luta e do amor incondicional, construindo uma rede que oferece desde o suporte psicológico mais íntimo até a ajuda prática para a subsistência. Essa comunidade prova que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, o amor e a união são capazes de construir pontes de esperança e resiliência inquebrantáveis.
Fonte: https://g1.globo.com
