Uma notável relíquia do século XIX, um sabre pertencente à Guarda Imperial de Dom Pedro II, que emergiu de forma inusitada em uma área de mata no interior do Rio Grande do Sul na década de 1960, agora encontrou seu devido lugar no acervo público. A peça de valor inestimável foi recentemente doada ao Parque Histórico General Bento Gonçalves, localizado em Cristal, na região Sul do estado. Essa doação encerra uma jornada particular do artefato, transformando-o de um objeto de família em um patrimônio acessível a todos, enriquecendo a compreensão da história imperial brasileira no sul do país.
A Inesperada Descoberta e Sua Jornada Familiar
A história da espada teve seu início décadas atrás, pelas mãos de Clóvis Roberto Egert, pai do doador. Durante uma de suas viagens de caça e pesca, na vasta região entre Frederico Westphalen e Palmeira das Missões, Clóvis deparou-se com o objeto em meio à vegetação. Após ser recuperado e passar por uma limpeza doméstica, o sabre transcendeu seu misterioso passado para se tornar um elemento decorativo na casa da família Egert, um testemunho silencioso de uma era distante. Com o falecimento de Clóvis, a espada foi cuidadosamente guardada em um baú, aguardando que seu verdadeiro significado fosse desvendado.
Do Herdeiro ao Guardião da História
Por muitos anos, Felipe Antonio Egert, policial penal e herdeiro da peça, considerou-a apenas um item ornamental. A verdadeira revelação sobre a origem e a importância do sabre veio à tona em uma conversa fortuita com seu irmão mais velho. Foi ele quem compartilhou a percepção de que se tratava de uma espada autêntica, possivelmente utilizada em batalhas, e que as insígnias 'PII' no guarda-mão indicavam inequivocamente sua ligação com o período imperial. Diante dessa descoberta, Felipe compreendeu que a peça possuía um valor cultural e histórico imenso, transcendendo o âmbito privado. Impulsionado pela convicção de que seu lugar não era em uma residência particular e descartando a venda por respeito à memória de seu pai, Felipe decidiu buscar um destino público para o artefato.
Autenticação e Significado Histórico-Cultural
A solução para o dilema de Felipe culminou na doação do sabre à Secretaria da Cultura do Estado (Sedac). O diretor do Departamento de Memória e Patrimônio da Sedac, Eduardo Hahn, foi o responsável pela identificação formal da peça como um sabre de oficiais da Guarda Nacional do Segundo Reinado (1840-1889), reforçando a autenticidade das insígnias 'PII' (Pedro II) no guarda-mão. Hahn destacou que armamentos como este tiveram papel em diversos eventos cruciais do Segundo Império, incluindo a Revolução Farroupilha, na qual o General Bento Gonçalves teve atuação proeminente. Embora não seja possível confirmar o uso específico desta peça na Revolução, sua presença é uma representação vívida das armas empregadas pelo império naquele período histórico, conectando o público a um passado relevante do país. Atualmente, o artefato está exposto no Parque Histórico General Bento Gonçalves, já acessível para visitação.
A doação deste sabre imperial, com sua rica trajetória desde a descoberta casual no campo até seu lugar de honra em um museu, é um testemunho da importância da preservação da memória e do patrimônio. A decisão de Felipe Antonio Egert em compartilhar essa herança familiar com a sociedade garante que um pedaço da história brasileira permaneça vivo e acessível para futuras gerações, enriquecendo o acervo cultural do Rio Grande do Sul e do Brasil. A contribuição, como salientou o próprio doador, é gratificante por assegurar a manutenção da história viva.
Fonte: https://g1.globo.com
