O que esperam do julgamento os sobreviventes do incêndio na boate Kiss: 'Não é o fim, mas é definidor'

Por Editor em 28/11/2021 às 07:29:31
Em janeiro de 2013, 242 pessoas morreram e 636 ficaram feridas após o fogo atingir a casa noturna, em Santa Maria. Tribunal do júri começa em nesta quarta (1º), em Porto Alegre. O julgamento do caso da boate Kiss, em Santa Maria, que começa nesta quarta (1ª), em Porto Alegre, busca responsabilizar ou não quatro réus pelo incêndio que causou a morte de 242 pessoas e deixou outras 636 feridas.

Embora remeta à madrugada de 27 de janeiro de 2013, a tragédia se estendeu por vários dias, semanas, meses em que muitos jovens precisaram tratar as lesões físicas e emocionais causadas pelo fogo e pela nuvem de fumaça.

Tragédia da boate Kiss completa 8 anos

Quem são as 242 vítimas

A reportagem ouviu alguns desses sobreviventes que são tanto vítimas de 636 tentativas de homicídio, conforme a denúncia do Ministério Público, como testemunhas de uma noite que já dura quase nove anos.

O g1 vai acompanhar ao vivo o tribunal do júri direto do Foro Central da Capital.

Guilherme e Emanuel foram entubados e ficaram mais de uma semana hospitalizados após incêndio na boate Kiss

Arquivo Pessoal

Acostumados a dividir tudo desde sempre, os gêmeos Guilherme e Emanuel Pastl decidiram que não passariam o 19º aniversário separados. De férias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, Emanuel viajou para Santa Maria, na Região Central do estado, para comemorar a data com irmão, estudante de Relações Internacionais na Federal de Santa Maria (UFSM).

A festa foi na boate Kiss com amigos de infância e colegas de Guilherme. O aniversário, dois dias depois, foi na UTI do Hospital Universitário, em Canoas, na Região Metropolitana da Capital. Ambos entubados, a poucos metros de distância um do outro.

A retirada do equipamento para respiração mecânica ocorreu mais de três dias depois, e Guilherme precisou ficar uma semana a mais do que o irmão devido a uma infecção. Ele teve menos queimaduras, mas inalou uma quantidade mais severa do gás tóxico liberado pela queima da espuma isolante.

"É um processo de recuperação que, bem dizer, ainda estou me adaptando até hoje. Faço uso de bombinha, e mesmo a atividade física é mais controlada, porque se faço um esforço muito grande, de imediato, sem controle, posso perder o ar e ter um ataque de asma", relata Guilherme.

Os motivos para serem sobreviventes e não vítimas são vários, desde o atendimento imediato que receberam após o incêndio até o completo acaso. Guilherme foi retirado desacordado da parte interna da boate. Ele estava na parte superior e, logo que viu a fumaça, constatou que era um incêndio. A percepção quase intuitiva reviveu as experiências que tivera quando criança com o pai, bombeiro aposentado, sobre prevenção de desastres desta natureza.

O pensamento foi manter a calma e buscar oxigênio nas abertura da parede de acrílico da bilheteria que separava o público da parte interna. O local ainda preservava um pouco de ar puro, que já começava a ficar saturado, e orientou a namorada da época, Luize, e a irmã dela, Anelise, a fazerem o mesmo.

O alívio durou pouco, pois logo a divisória foi quebrada, ele perdeu a consciência e desmaiou. Só foi entender o que aconteceu no sábado seguinte, quando acordou do coma induzido. Alguém o colocou na calçada, onde um amigo o reconheceu e conseguiu encaminhá-lo a uma clínica em uma viatura da polícia. Depois, foi levado ao hospital da Unifra, onde foi entubado, até ser transferido para Canoas.

"Para mim, toda essa semana passou como se tivesse dormido e acordado dias depois", relembra.

Já o irmão e as duas jovens conseguiram sair do prédio por conta própria. Luize chegou a desmaiar, segundo Guilherme, mas acordou quando os bombeiros começaram a bombear água para a parte interna — o que resfriou o ambiente e permitiu que ela pudesse engatinhar até o lado de fora.

Emanuel estava em outra poucos metros deles e também saiu sozinho, ainda que tenha queimado a íris com a fumaça, que, segundo ele, chegou a ficar entre 150ºC e 250ºC. E estava com eles Allana Willers, colega de colégio deles, que estava próxima a Emanuel. No tumulto, porém, eles se desencontraram, e ela não resistiu aos ferimentos.

"Nessa situação de tumulto, na saída de emergência, virou uma situação de pânico. As pessoas entraram em estado de choque. Começaram a se empurrar, se puxar, foi bem complicado. Um minuto depois, provavelmente, teve um aumento significativo de temperatura, ficou em uma situação insuportável, e a intensidade de fumaça também aumentou. (...) Nessa situação de pânico, mais uns 30 segundos depois, a luz caiu, ficou tudo escuro e o som desligou. Da situação de pânico, virou um terror", relembra Emanuel.

Em um carro da polícia militar, ele foi para o Hospital de Caridade com outro sobrevivente, onde foi constatada a perda de visão momentânea e queimaduras na pele. Mesmo com lesões menos graves, precisou de ventilação mecânica.

"Eu lembro que saí por conta. Fui em direção da saída de emergência. Mas do momento de saída mesmo, eu não me lembro. (...) Estava indo em direção da porta e, depois, na rua, quando a polícia me levou para o hospital", descreve Emanuel.

'Quem viveu aquilo foi brutalmente emboscado pelas circunstâncias do local'

Gabriel Rovadoschi Barros, 27 anos, é um dos sobreviventes do incêndio na boate Kiss, em 2013

Arquivo Pessoal

Hoje psicólogo, Gabriel Rovadoschi Barros, de 27 anos, era um estudante de jornalismo na época. Ele esteva na Kiss também na noite anterior à tragédia, e lembra que o local estava com uma lotação muito inferior à da madrugada do incêndio. Decidiu voltar com alguns amigos na noite do dia 26, e já na fila de entrada percebia que havia gente demais.

Entre 2h30 e 3h, estava em uma posição da pista oposta ao palco, quando viu uma agitação e vários rostos voltando-se para o mesmo lugar. Ele ouviu um murmúrio e entendeu que seria uma briga. Imediatamente, seguiu o fluxo em direção à saída, mas viu as portas fechadas e o público estagnado.

Em segundos, Gabriel sentiu uma fumaça branca e ardida, protegeu as vias aéreas com a camisa e guardou energia para deixar o local. Em meio a gritos e pessoas tombando à sua frente, conseguiu mirar uma luz na parte externa e sair aos tropeções entre centenas de outros frequentadores.

"Não foi só um fator, dois fatores, três que ocasionaram a minha saída — foram múltiplos. Por isso que é de se indignar muito pelas milhares de condições possíveis que poderiam ter dado saída para alguém e que a gente não teve. Se eu tivesse demorado um segundo a mais para dar um passo no início, talvez não tivesse tido essa abertura no fundo. Se alguém tivesse avisado que era um incêndio pelo microfone, a gente teria reagido de outra forma", sugere.

Do lado de fora, observando o desespero das pessoas, Gabriel sabia que precisava agir para ajudar. Ligou para a mãe e conseguiu levar uma amiga e outro jovem que estava com o braço sangrando de carro para o Pronto-Atendimento do Patronato, a pouco mais de 3 km dali.

Quase nove anos depois, ele participa de eventos dos movimentos das famílias e dos sobreviventes sem esquecer do quanto aquela noite mudou o que imaginava do começo da vida adulta.

"Quem viveu aquilo foi brutalmente emboscado pelas circunstâncias do local, pela irresponsabilidade, pela ganância, pela crueldade e descaso com a vida e com a segurança. Eu realmente acho que o julgamento não é o fim, mas ele é definidor. Ele vai definir o rumo de todo um movimento, toda uma luta não só por justiça, mas por respeito à memória, e que isso nunca mais aconteça", afirma.

Justiça contra a impunidade

Guilherme atualmente é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mora em Florianópolis. Ele se formou em Santa Maria, mas deixou a cidade e manteve pouco contato com as entidades formadas pelas famílias das vítimas e sobreviventes.

O distanciamento, para ele, ajuda a não alimentar nenhum ressentimento pelo que passou. De qualquer maneira, é pelas demais famílias que aguarda uma condenação dos réus.

"Acho que a justiça tem que ser feita. Acho que muitas famílias, para continuarem vivendo, precisam deste encerramento. Minha expectativa é que traga não um alento, mas algum norte para muitas famílias que dependem deste tipo de processo. E também a responsabilização civil e penal das pessoas que foram responsáveis pela tragédia", afirma.

Emanuel também não irá acompanhar o julgamento além das notícias. Ele considera a morosidade do processo, que se estende por quase nove anos, um fator que torna injusto qualquer seja o resultado.

"Já não tem como ser feita justiça nessa situação, porque o processo tá demorando. Vai fechar 10 anos daqui a pouco. Mesmo assim, não teve nenhum resultado, não teve nenhum fim. Não vejo, tecnicamente, que isso possa dar algum exemplo de justiça e punição para as pessoas que fazem errado essas medidas de proteção contra incêndio. Passou muito tempo, e não sei se, mesmo com alguma condenação, não se perdeu esse efeito moral de dar um pouquinho de coação às pessoas de terem receio em fazerem as medidas erradas. Esse ímpeto se perde, se dilui", define.

Gabriel deposita as críticas em outro distanciamento: a troca de local do júri de Santa Maria, onde ocorreu a tragédia, para a capital gaúcha. Ele acredita que o julgamento é o fim de um ciclo em que ninguém aguarda mais do que as famílias das vítimas e os sobreviventes.

"Eu torço para que a gente não leve mais um golpe diante de tantos que o movimento já levou ao longo dessa espera do julgamento. O desaforamento para Porto Alegre acho que é uma violência com a cidade, com os familiares, com os sobreviventes que estão aqui. É uma história de muita espera e de muita violência pro lado de quem não foi culpado", diz.

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Sheik Burger

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Tia carmen