O que esperam as famílias das 242 vítimas do incêndio na boate Kiss sobre júri em Porto Alegre: 'Justiça'

Por Editor em 27/11/2021 às 07:20:30
Fogo consumiu parte da casa noturna, em Santa Maria, em janeiro de 2013. Além das mortes, 636 pessoas ficaram feridas. Julgamento começa nesta quarta (1º), em Porto Alegre. O julgamento dos quatro réus pelo incêndio da boate Kiss, que começa nesta quarta-feira (1º), em Porto Alegre, é o desfecho de uma história que inicia em Santa Maria, na Região Central do estado, nas primeiras horas de 27 de janeiro de 2013.

Naquela madrugada, e também ao longo dos dias posteriores, 242 pessoas morreram e 636 ficaram feridas após o fogo consumir parte da casa noturna.

Tragédia da boate Kiss completa 8 anos

Quem são as 242 vítimas

O g1 vai acompanhar ao vivo o tribunal do júri direto do Foro Central da Capital. Antes, porém, ouviu algumas famílias sobre as expectativas pela conclusão de um processo exaustivo, que tramitou em todas as instâncias da justiça brasileira por oito anos e 11 meses, até a decisão pelo júri na capital gaúcha.

Livia Oliveira e o filho Heitor, uma das 242 vítimas do incêndio na boate Kiss em 201

Arquivo pessoal

Livia Oliveira falou pela última vez com o filho Heitor, de 24 anos, às 23h45 de 26 de janeiro de 2013. Estudante de economia, ele não iria à festa com outros universitários, mas precisava entregar alguns recibos a uns amigos que o haviam contratado para operar a parte financeira de um bloco de carnaval.

Como morava na Rua dos Andradas, a mesma da Kiss, seriam alguns minutos de caminhada e logo estaria de volta em casa. Tanto que deixou o computador ligado, deu um beijo na avó e saiu. A mãe, que estava em Itaara, a pouco mais de 12 km ao norte dali, foi dormir sem se preocupar.

"Ele entrou por duas vezes dentro da boate. A primeira foi quando começou todo aquele tumulto — e o Heitor sempre foi uma pessoa de ajudar, de estar presente, de acolher — e ele entrou para ajudar. Na segunda vez, o Heitor não saiu. Ele acabou caindo próximo da porta. Ele saiu com os sinais vitais da boate e entrou em óbito no [Hospital] Caridade", recorda Livia.

Vanessa Vasconcellos e a irmã Letícia, que era recepcionista da Kiss na época do incêndio

Arquivo pessoal

Quem conhecia bem os meandros da boate era a produtora cultural Vanessa Vasconcellos, atualmente com 32 anos. Ela trabalhou de 2010 a janeiro de 2013 promovendo festas em Santa Maria. A irmã mais velha, Letícia, com 36 anos na época, começou a trabalhar como recepcionista na Kiss dois anos antes por intermédio de Vanessa.

O emprego foi lhe sugerido como forma de ajudá-la a criar os dois filhos, então com seis e 13 anos, logo após a separação. Mas o que de fato a manteve lá foi o carisma. Extrovertida e dedicada, ela trabalharia mais uma madrugada e depois sairia com o amigo João Carlos Barcellos para se encontrarem com Vanessa.

Nesta época, a caçula já não atuava mais na boate por divergências com a direção. Entre os motivos estavam as críticas quanto à colocação da espuma para isolamento acústico — que não servia para este propósito, segundo Vanessa — e dos guarda-corpos utilizados para evitar dispersão do público, o que prejudicaria cadeirantes, por exemplo, de frequentarem o local. As duas questões devem voltar à discussão no julgamento como razões, conforme o Ministério Público, para a quantidade de vítimas.

Naquela noite, entretanto, Vanessa voltaria mais uma vez para a boate. Logo que o fogo começou, um outros funcionário que deixou o prédio em seguida ligou para avisá-la do incêndio. Letícia e João não conseguiram sair. Eles eram dois dos 14 a 16 profissionais com vínculo com a casa noturna que morreram na tragédia.

"Eu tentei entrar e só não entrei porque meu pai me segurou. Não tinha fogo, era só fumaça. Ficava imaginando que as pessoas não conseguiam sair porque não estavam encontrando a saída. (...) Sei de relatos de gente que viu ela [Letícia] ali na frente e acabou retornando. (...) Eu imagino que ela tenha entrado para procurar alguém, tentar procurar as pessoas e, infelizmente, não conseguiu sair", relembra Vanessa.

Elizete Terezinha Andreatta com o filho Ariel, de 18, que também morreu no incêndio da boate Kiss

Arquivo pessoal

Um sentimento parecido é nutrido por Elizete Terezinha Nunes Andreatta, de 58 anos, em relação ao filho Ariel. Naquela madrugada, ele e duas amigas faleceram. E, no coração de mãe, ela guarda a certeza de que o filho tentou protegê-las enquanto estiveram juntos.

Jovem humilde criado com um irmão mais novo por uma professora aposentada e um agricultor de Joia, no noroeste gaúcho, ele concluiu o Ensino Médio em Ijuí e se mudou para a Região Central para estudar Tecnologia em Alimentos na Universidade Federal de Santa Maria.

Na véspera do incêndio, ele falou com a mãe às 22h10 e disse que estava comendo pizza com as colegas de curso. Elizete foi dormir com a preocupação de que ele voltasse para casa de táxi, a fim de evitar assaltos. Nem sequer cogitou que eles estivessem na boate.

Somente no dia seguinte, ao acordar cedo e ligar o rádio, soube da tragédia. Os pais tentaram ligar para Ariel, que nunca atendeu o telefone. Ela só encontrou o corpo do filho horas mais tarde, no Centro Desportivo Municipal, conhecido como Farrezão.

"A morte de um filho é algo doloroso, é terrível. E se tratando de um homicídio, é muito mais doloroso. Quando é doença ou alguma coisa assim... mas eles saíram para se divertir. Eles foram lá para se divertir e voltaram sem vida. (...) Esse luto, de um pai e de uma mãe, é para o resto da vida. Tem dias que até tu consegue viver, mas tem dias que o teu coração aperta e não tem como. Porque a saudade, a maneira como ele era iluminado. Isso marca muito na vida da gente", emociona-se Elizete.

Jacqueline Malezan foi informada pela filha Luiza que Augusto estava na boate Kiss na madrugada do incêndio

Arquivo pessoal

Jacqueline Malezan, de 57 anos, também não estava próxima ao Centro de Santa Maria. Ela acampava em um lago próximo aonde os pais e o filho Augusto, aos 18 anos, moravam, no distrito de Santa Flora, enquanto ele esperava para ingressar no quartel. O jovem iria a um baile e, por isso, ela não acreditou quando a filha Luiza, de 20 anos, ligou às 5h avisando-a que o irmão estava na Kiss.

A sequência de ações foi semelhante a de tantas outras famílias naquela noite: ligou para o telefone dele, que não atendeu, passou a acompanhar as notícias pelo rádio e, ao perceber a dimensão do que estava acontecendo, telefonou para uma prima médica que estava de plantão.

Em um primeiro momento, ela disse que Augusto tinha algumas queimaduras e foi atendido no Hospital da Caridade. Mas as horas se passavam, e ele não era localizado em nenhuma instituição. Ao meio-dia, o pai dele o reconheceu já no ginásio. No inquérito, o nome de Augusto consta entre as pessoas que também deixaram o prédio e retornaram para salvar outras.

"A gente fica paralisada. Não sabe se é verdade ou se é mentira. Acho que até ver o corpo eu não acreditava. Eu dizia: 'Me digam que é mentira, que não é o Augusto'", descreve.

Famílias divergem sobre ida a Porto Alegre...

Em quase nove anos, as famílias buscaram formas próprias de superar as perdas ou, pelo menos, encontrar uma maneira de lidar com isso. Algumas aderiram à força da solidariedade na formação de entidades civis como a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM).

Outras nem sequer pretendem ir ao Foro Central de Porto Alegre para assistir a quase duas semanas de julgamento. Livia é uma delas.

"Às vezes me pego vendo amigos do Heitor casados, com filhos já, e eu fico me perguntando como seria como avó. Como o Heitor estaria hoje, se estaria formado, o que estaria fazendo da vida. E isso dói. Dói tu ver que a impunidade está prevalecendo e que nós corremos o risco de que ela continue prevalecendo. Isso dói muito", afirma.

Elizete e Jacqueline pensam em ir, nem que seja por alguns dias. "O que almejo para a memória dele e das 242 vítimas é justiça. Porque nossos filhos não mereciam e não merecem esse total abandono do que aconteceu lá. Não foi uma tragédia. Tragédia é quando acontece uma coisa involuntária. (...) Eu considero um assassinato, um homicídio", diz a mãe de Ariel.

"A gente vive. Sobrevive, na verdade", desabafa a mãe de Augusto.

...mas concordam sobre desejo de justiça

Os sentimentos convergem em um pedido: justiça. Mesmo que este conceito divirja de uma cabeça para outra.

"Eles querem provar que não queriam fazer aquilo. Mas construiu para que desse naquilo. Eles sabiam que não tinha porta, que não tinha extintor, que o teto era de espuma, que estava com mais de mil pessoas lá dentro. (...) Cada um tem a sua culpa", diz Jaqueline Malezan.

Além da demora na realização do júri, uma das medidas mais sentidas pela família é o do desaforamento para a Capital. Ainda que a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) corrobore a denúncia por 242 homicídios por dolo eventual e 636 tentativas, a retirada do julgamento de Santa Maria é encarada como um golpe.

"Dizer que eu quero que pegue 20 anos, 30 anos, não sei. Não é essa sentença que vai trazer meu filho de volta. Infelizmente não vai trazer nossos filhos de volta. (...) Espero que haja justiça, mas não saberia dizer em tempo o que eu espero. Acho que o que todos nós queremos é pôr um fim neste processo que se arrasta por tantos anos", diz Livia.

"Os nossos filhos... fazem nove anos que não conseguimos abraçar. Seja em um aniversário, seja no final do ano. Além dessa perda e desse trauma, temos a perda física deles. Se coloquem no lugar de uma mãe e de um pai para saber o que um coração sente numa hora dessas", afirma Elizete.

Vanessa lembra ainda de famílias que perderam pessoas que eram responsáveis pelos seus lares. Ela conta que, depois da morte da irmã, o pai delas teve depressão e morreu em 2018, de embolia pulmonar, sem saber o resultado do processo sobre a morte da filha. Os sobrinhos, embora já tenham 15 e 22 anos, ainda precisam do amparo dela e da mãe.

"Nunca vou superar isto, nunca vou deixar de ter a dor que sinto, nunca a minha irmã vai voltar. Não vai. Só que se a Justiça acredita que devam ser presos, isso pra mim é justiça. Só não pode ficar impune. (...) A impunidade, a injustiça é pior do que qualquer outra coisa. Viver nove anos sem sabe o que pode acontecer e muitas vezes escutando absurdos como 'continuem com a vida de vocês, deixem eles descansarem', para mim, só reflete que as únicas pessoas que estão pagando pelo dia 27 de janeiro de 2013 somos nós, os parentes, os sobreviventes e os que morreram", preza Vanessa.

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Sheik Burger

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Tia carmen