Qual é a recompensa quando a gente faz a coisa certa?

Por Editor em 26/11/2021 às 17:15:43
Notícias de pessoas que devolvem aos verdadeiros donos dinheiro perdido ou recebido indevidamente dividem opiniões quando se trata de 'o que eu faria se estivesse no lugar dessa pessoa'? Estudiosos discutem a questão. Nestor Führ recebeu depósito de R$ 861 mil por engano e devolveu o dinheiro

Reprodução/RBS TV

O curioso, o diferente e o excepcional estão entre os critérios considerados por jornalistas no momento de decidir se algo é notícia ou não. É por isso que, volta e meia, são noticiados casos de pessoas que devolvem dinheiro depositado indevidamente em suas contas ou que encontram carteiras perdidas e as entregam de volta para os donos legítimos.

Mas por que isso é curioso, diferente ou excepcional? O que leva uma pessoa a agir dessa forma? Qual a recompensa que ela recebe ao fazer "a coisa certa"? Estudiosos conversaram com o g1 e indicaram alguns motivos. Confira abaixo.

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Nem pensou em ficar com o dinheiro

Por engano, o agricultor do interior de Arroio do Meio, no Rio Grande do Sul, Nestor Führ, recebeu em novembro um depósito de R$ 861 mil. Foi chamado pelo gerente do banco, que perguntou se ele topava devolver o dinheiro.Em resposta, disse que nem pensou em ficar com a quantia.

Com a repercussão do caso, ele ficou conhecido na cidade de 21 mil habitantes como o "ex-milionário".

"Um dia dá certo, por via certa. Eu estou marcado para isso", refletiu Führ.

Diferentes estudos têm evidenciado que agir de forma altruísta, em benefício da sociedade, traz satisfação pessoal. Talvez isso explique esse tipo de comportamento, mesmo quando as pessoas envolvidas podem se beneficiar com o dinheiro recebido indevidamente, conta a psicóloga Andressa Rocha da Cás, que estuda terapia cognitivo-comportamental.

"Comportamentos pró-sociais estão associados a habilidades cognitivas preservadas, como o foco, a memória, a atenção, a responsabilidade, a percepção auditiva e a criatividade. A atitude dele [de Nestor Führ] mostra quem ele é. É um traço de personalidade que ele tem, baseado nas crenças dele e por experiências que teve desde que nasceu", diz.

Moradores de Arroio do Meio elogiaram a honestidade de Nestor. "Essa atitude fez dele uma pessoa grande", comentou a aposentada Marli Nos.

Comprovante do depósito de R$ 861 mil, pago por engano a agricultor

Reprodução/RBS TV

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O poder de escolher

Em junho deste ano, o engenheiro Jhonathan David, 33 anos, encontrou uma carteira com R$ 1.185 na prateleira de um mercado em Socorocaba (SP). Pensou em deixá-la lá, mas não confiou que ela chegaria até o dono. Publicou a história na internet e recebeu retorno de dezenas de pessoas dizendo que a carteira era delas. A verdadeira dona, que soube dizer exatamente o que havia dentro, era Beatriz de Souza Rocha, que disse que Jhonathan foi um anjo e "que só sabia chorar, com medo de não conseguir achar mais [a carteira]".

"Como eu tinha em mãos o poder de deixar alguém triste ou feliz naquele momento, não pensei duas vezes", disse Jhonathan na época.

Engenheiro achou carteira em Sorocaba

Arquivo pessoal

O professor de ética filosófica Paulo César Carbonari explica que o ser humano é livre para fazer escolhas. Então, quando se trata de ética, a dimensão da liberdade dentro desse contexto é forte.

"É uma questão de liberdade. Exercer a liberdade é fazer as escolhas e, consequentemente, assumir as responsabilidades decorrentes dessas escolhas. Nesses casos específicos, a pessoa está diante de uma: devolver ou se apropriar?", conta o estudioso do Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE).

Nas duas situações, a pessoa enfrenta consequências, que ele diz que podem ser diversas.

"É importante considerar, no entanto, que o exercício da tomada de decisão se dá dentro de um contexto de liberdades normativas", conta.

Normalmente, as decisões são tomadas de um ponto de vista racional. Ele cita que elas podem ser orientadas de várias formas, entre elas, juridicamente (o que diz a lei?), por razões religiosas (o que diz o dogma) e ético-morais (altruístas e egoístas, por exemplo).

"É inegável que há um fator emocional também. O dinheiro fala muito forte hoje. Tanto que leva autores a dizer, efetivamente, que o dinheiro subordina os sujeitos. Há uma distorção na sociedade contemporânea causada por ele. Gente que faz tudo por dinheiro e sacrifica sua liberdade por ele. Mas esse tipo de notícia [de devolução do dinheiro] renova a esperança na sociedade", comenta.

'O ser humano nasce bom; a sociedade o corrompe'

A frase do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nos faz perceber que as ações do ser humano são reflexo do meio em que a pessoa cresce e vive.

Para a psicóloga Fernanda de Vargas, doutora em Ciência Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), o cérebro do ser humano é moldado ao longo do tempo. Então, se uma pessoa tem um hábito pró-social, é provável que ela tome decisões nesse sentido.

"Dá para dizer que o nosso cérebro é preguiçoso. Ele tende a poupar energia e segue aquele caminho ao qual está mais adaptado. Então, se a pessoa está habituada a ter comportamento benéfico em relação à sociedade, mesmo que ela seja tentada, é mais fácil que esse comportamento se repita", explica Fernanda.

Ela conta que é por essa razão que "velhos hábitos", assim como vícios, são difíceis de mudar.

"Enquanto espécie humana, a gente só sobreviveu porque nós temos comportamentos pró-sociais, de estar auxiliando o grupo com o qual a gente convive, a sociedade. Claro que teremos desvios, pessoas que não se encaixam. Mas há uma recompensa quando se age com empatia, que é a satisfação", explica.

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