Jornalista mostra origem de antepassados negros no RS: 'sou a 4ª geração livre da minha família'

Por Editor em 13/05/2022 às 13:06:21
Para descendentes de africanos escravizados no Brasil, conhecer suas raízes não é tarefa fácil. Repórter Fernanda Carvalho, da RBS TV, investigou origens de sua família no estado. Fernanda Carvalho buscou registros de seus ancestrais

Reprodução/RBS TV

O Rio Grande do Sul soma, atualmente, 1,725 milhão de negros em sua população. A origem dessa parcela da sociedade vem da escravização de povos africanos, que durou 388 anos no Brasil. Nesse período, quase 5 milhões de homens, mulheres e crianças foram sequestrados no continente africano, fazendo com que hoje o país tenha a maior população negra fora da África.

Muito mais do que os traços e a cor da pele, o que há em comum entre este povo é a luta contra o apagamento de seu passado. A primeira reportagem do quadro JA Repórter, exibido no Jornal do Almoço, da RBS TV, nesta sexta-feira (13), vai atrás da ancestralidade do povo negro.

"Eu sou a quarta geração livre na minha família", afirma a repórter Fernanda Carvalho, que procurou em arquivos e registros históricos mais informações sobre seus familiares.

Família Carvalho

Em 13 de maio de 1888, foi abolida a escravização no Brasil. Contudo, ainda hoje, negros e negras sofrem reflexos de séculos de barbárie que, entre outros impactos, mudou nomes originais, separou famílias e destruiu documentos.

Carvalho é o nome de uma árvore milenar, símbolo de resistência. Quanto mais enfrenta tempestades, mais profundas ficam suas raízes.

"Tudo começou com um documento, de 1950, que a minha mãe achou em casa e que ela acreditou ser uma versão da certidão de casamentos dos meus tataravós. Ela me deu porque sabe que eu gosto de coisas históricas", conta Fernanda.

Para os descendentes de africanos que foram trazidos para o Brasil, conhecer essas raízes não é tarefa fácil. A falta de documentação oficial é uma barreira no processo de busca por nomes e trajetórias.

"Descobri que foi a partir da minha bisavó que a gente teve liberdade na família", diz a jornalista.

Na certidão de casamento de seus tataravós, Antonio e Anna Ignácia, estava o documento que permitiu a ela conhecer o passado de sua família, em Santo Antônio da Patrulha, no Litoral Norte do RS.

"Há uma dificuldade realmente grande em encontrar esses acervos", explica Edson Kirsten, do cartório da cidade.

Na ata, feita anos após o matrimônio, consta o nome de Etelvina, bisavó da repórter. Nascida em 1891, ela foi a primeira da família a nascer livre no Brasil.

"Nós não encontramos, praticamente em nenhum município do Rio Grande do Sul, a história de negros e negras do pós-abolição. Tu não sabe o que aconteceu com aqueles negros e negras que saíram das estâncias, que saíram das charqueadas, que ficaram livres da fazenda, da senzala, da opressão, mas que tiveram que sobreviver", pondera o doutor em história João Heitor Silva Macedo.

Documentos com informações sobre os ancestrais da família Carvalho

Reprodução/RBS TV

A foto e o tio

Na busca por respostas, uma foto de moradores de Santo Antônio da Patrulha publicada em uma rede social deu forma ao personagem de histórias da família: o João Brito de Carvalho, irmão do tataravô Antonio, um negro que teria vivido quase 100 anos como andarilho, de pés descalços. A falta de sapatos, uma imposição aos negros mesmo depois da abolição, era sua marca registrada.

"A minha ideia, a partir desses dois registros [a ata e a foto], era tentar descobrir de onde vieram os meus ancestrais na África. Em Santo Antônio eu descobri a ata do casamento, eles casaram em 30 de março de 1905, coincidentemente, o dia em que comecei a busca em Santo Antônio era um 30 de março, 117 anos depois", destaca Fernanda.

Tio Brito, de Santo Antônio da Patrulha

Reprodução/RBS TV

Tio Brito, como era conhecido, foi escravizado até seus 14 anos em uma propriedade do município. No terreno, que pertencia a Sezefredo da Costa Torres, existia uma senzala. A atual dona do local, a esposa de um tio-avô e um primo de segundo grau dizem lembrar de Brito.

"Eu pude visitar a fazenda onde ele foi escravizado, fazenda onde ele ficou inclusive depois da abolição porque, como a gente sabe, eles não tinham pra onde ir. A mulher que mora hoje nessa fazenda conheceu ele quando criança e tinha uma foto dele", relata Fernanda.

Arquivos

O Arquivo Público do Estado ainda guarda muitos registros da época da escravidão, mas os documentos mostram idades aproximadas, poucos confirmam as origens e o lugar da filiação quase sempre está em branco. São escritos bem desenhados que não disfarçam a crueldade de um período que transformou pessoas em bens.

"Ao longo de vários anos, com uma equipe grande de estagiários, coordenados por arquivistas e historiadores, se buscou identificar dentro de inventários, testamentos, processos criminais, cartas de liberdades e registros de compra e venda a presença dessas pessoas que um dia foram escravizadas", conta a historiadora Clarissa Sommer.

O historiador Rodrigo Weimer comenta que muitos documentos foram destruídos. Ainda assim, não foi possível apagar as marcas da escravidão.

"A escravidão é estrutural no Brasil, impossível uma instituição que durou 300 anos não ter deixado registro", aponta.

Clubes negros

Apesar dos poucos registros, a história dos negros e negras é de muita resistência. Boa parte da documentação que se tem atualmente está nos clubes negros.

Um deles, o Sociedade Floresta Aurora, fica em Porto Alegre. A entidade surgiu para ajudar financeiramente negros que não tinham como pagar pelo enterro de seus familiares pouco antes da abolição. Este ano, o Floresta completa 150 anos, ou seja, é mais antigo que a própria liberdade.

"Um grupo de negros, um ano depois da Lei do Ventre Livre, vinha caminhando pela Cristóvão Colombo, no bairro Floresta. Vinham de noite, de manhã cedo, eram músicos, outros trabalhadores, se reuniram lá e começaram a conversar: 'nós temos que fundar uma sociedade'", rememora o presidente do Floresta, Gilmar dos Santos Afrausino.

As inúmeras mudanças de sede para fugir da perseguição fizeram com que parte do material tenha se perdido. Entretanto, as memórias contadas de geração para geração seguem vivas, como relata a ex-presidente da entidade Maria Eunice da Silva.

"O que a gente tem e o que a gente faz hoje é fruto do que eles deixaram, do que eles passaram para nós. Nós temos compromisso com eles", defende.

Honrar as raízes

A busca da repórter Fernanda Carvalho chegou até Dionísia e Antonia, suas tetravós. Não há, no entanto, um nome no lugar destinado aos pais dos seus filhos nos documentos nem fotos delas na família.

"Provavelmente eu nunca venha a saber as tempestades que as fizeram fortes nem quais foram os caminhos pisados por um preto velho descalço, para quem não ter paradeiro talvez tenha sido o verdadeiro sinônimo de liberdade. Como eu gostaria de saber de onde na África vieram nossas sementes, lacuna que talvez eles também carregassem. Mas sei que desse imenso carvalho do qual sou parte, tenho que ser galho forte em honra das raízes poderosas que me sustentam", considera Fernanda.

"Saio dessa busca me sentindo muito fortalecida, muito enriquecida. Saio com a certeza de que sou descendente de pessoas resistentes, resilientes, e é por isso que estou aqui", emociona-se a jornalista.

Fernanda Carvalho, repórter da RBS TV

Reprodução/RBS TV

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Tia carmen