A perda inesperada de Alice Moraes, uma jovem de apenas 27 anos, em 2022, durante um evento em Porto Alegre, deixou um vazio imenso. Contudo, além da dor do luto, a família de Alice herdou um propósito grandioso: a missão de cuidar de 24 cães, o coração pulsante do projeto de vida que a futura veterinária estava construindo. André e Angela Moraes, pais de Alice, transformaram a ausência da filha em uma força motriz, dedicando-se incansavelmente para que o sonho de sua amada filha, que sonhava em proteger e resgatar animais abandonados, não fosse esquecido.
Mais do que meros tutores, eles se tornaram guardiões de um legado de amor e dedicação animal, implementando uma rotina rigorosa e afetuosa que espelha o carinho e o profissionalismo que Alice dedicaria a cada um desses seres. O desafio de gerenciar um lar com tantos focinhos é monumental, mas para André e Angela, cada cão é um pedaço vivo da filha, um lembrete constante de sua paixão interrompida.
O Santuário de Alice: Uma Visão de Resgate e Adoção
Desde seu ingresso na faculdade de Medicina Veterinária em 2016, Alice Moraes cultivava o ideal de criar um serviço inovador de resgate e prevenção para animais em situação de vulnerabilidade, que ela carinhosamente imaginava como um "SAMU dos bichos". Sua visão ia muito além de um simples abrigo; ela aspirava a um sistema organizado onde cada animal resgatado fosse castrado, vacinado e recebesse acompanhamento completo até encontrar um lar definitivo. Não era um "depósito de cães", mas sim um ciclo virtuoso de cuidado e responsabilidade.
A família Moraes abraçou essa ideia com entusiasmo, adaptando gradualmente a própria casa para se tornar o embrião desse projeto ambicioso. Foram construídos canis arejados e seguros, e uma rotina de resgates, cuidados veterinários e processos de adoção foi estabelecida. A iniciativa de Alice era tão abrangente que chegou a incluir um pequeno "hotel para cães de vizinhos" dentro do terreno, demonstrando seu espírito comunitário e seu profundo comprometimento com o bem-estar animal. O pai, André, sonhava em se aposentar para se tornar seu auxiliar, planejando fazer cursos de tosa e adestramento para trabalhar lado a lado com a filha, transformando a paixão de ambos em uma vocação compartilhada.
A Meticulosa Gestão Diária de 24 Vidas
Hoje, André e Angela Moraes orquestram uma rotina diária que é um testemunho de organização e amor incondicional. O cronograma é minuciosamente planejado para atender às necessidades individuais de cada um dos 24 cães. Pela manhã, a alimentação é um evento sincronizado: cada animal recebe sua porção de ração em um prato individual, muitas vezes acompanhada de dietas específicas — hipoalergênicas para peles sensíveis, gastrointestinais para quem precisa, e medicamentos cuidadosamente administrados ao lado da tigela correta.
Ao longo do dia, a higiene é primordial, com três rodadas de limpeza dedicadas à remoção de resíduos, lavagem e higienização completa do pátio com produtos adequados, além de um rigoroso controle de pulgas e carrapatos. Cada cão possui sua carteirinha de vacinação individual e todos são castrados, reforçando o compromisso com a saúde e o controle populacional. A convivência harmoniosa com a vizinhança é outra prioridade, com atenção redobrada aos latidos noturnos e a manutenção de portões sempre fechados, assegurando um ambiente tranquilo para todos. Essa dedicação garante que cada animal receba o cuidado que Alice desejaria.
A Força dos Cães no Processo de Luto e Reconstrução
A vida da família Moraes mudou drasticamente em 16 de julho de 2022, quando Alice faleceu após um mal súbito durante um show. A forma como Alice partiu foi marcada por grande angústia para o pai, André, que acredita ter havido negligência e uma sucessão de erros no atendimento. Embora cinco pessoas tenham sido indiciadas por omissão de socorro, o Ministério Público do RS arquivou o caso em 2024, considerando a morte uma fatalidade sem nexo causal ou culpa comprovada dos profissionais envolvidos.
Diante da imensa tristeza e incredulidade, foram os cães que, com sua rotina inabalável, ofereceram um caminho para a continuidade. A necessidade de acordar cedo, alimentá-los, limpar o pátio e seguir os rituais que Alice havia estabelecido, forçou a família a sair da cama e a enfrentar cada novo dia. Angela Moraes descreve os animais como a própria Alice, um elo vivo que os impulsionou a seguir em frente. O cão Carvão, que era inseparável de Alice, manifesta sua dor evitando o quarto dela, mas ocasionalmente, ao ouvir movimentos, arrisca-se a verificar se sua tutora retornou, dormindo agora no quarto do casal. O amor com que a família cuida desses animais é, para Angela, o mesmo amor que Alice dedicava a eles.
Um Lar Compartilhado: Personalidades e Conforto para Todos
Atualmente, a casa dos Moraes em Porto Alegre abriga não apenas André e Angela, mas também os 24 cães que compõem a família estendida. Eles vivem em um ambiente cuidadosamente adaptado, entre a residência principal e canis reformados. Estas estruturas contam com telhado reforçado, ventiladores e caminhas confortáveis, garantindo que os animais desfrutem de bem-estar. Não há correntes; as portas permanecem abertas, permitindo que os cães circulem livremente, disputando espaços ao sol ou desfrutando do ar-condicionado em dias mais quentes.
À noite, parte dos cães é recolhida para áreas fechadas, uma medida adotada para controlar o barulho e assegurar a tranquilidade da vizinhança. Mas cada um desses animais possui uma individualidade marcante. Com nomes e personalidades distintas, eles se diferenciam uns dos outros como os dedos da mão. Há Matilda, que suspira em agradecimento ao deitar no ar gelado, e outros cuja presença é reconhecida até pelo latido, como observa André. Essa convivência vibrante e cheia de peculiaridades transforma o lar em um mosaico de histórias, cada uma contribuindo para a tapeçaria emocional da família Moraes.
O caminho percorrido por André e Angela Moraes desde a trágica partida de Alice é um comovente relato de resiliência e amor. Eles não apenas mantiveram vivo o ambicioso projeto da filha, mas o transformaram em seu próprio propósito de vida. A dedicação incansável a esses 24 cães é um tributo diário à paixão de Alice pelos animais, uma forma tangível de honrar sua memória e seu desejo de fazer a diferença. Longe de ser um fardo, os animais são a manifestação mais pura do legado de Alice, proporcionando conforto, estrutura e um amor incondicional que preenche um vazio imenso. Assim, a casa dos Moraes, repleta de latidos e carinhos, permanece como um santuário de esperança, onde o sonho de Alice continua a florescer em cada focinho cuidado.
Fonte: https://g1.globo.com
