Em 1965, no auge da Guerra Fria, uma história extraordinária e perigosa se desenrolava nas paisagens gélidas do Himalaia. Não se tratava de uma mera expedição exploratória, mas de uma operação ultrassecreta orquestrada pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. O objetivo: espionar a crescente capacidade nuclear da China, que havia chocado o mundo ao detonar sua primeira bomba atômica. Anos depois, revelações do The New York Times lançariam luz sobre os detalhes dessa missão audaciosa, que culminaria não apenas na perda de um equipamento vital, mas na criação de um potencial risco ambiental, uma verdadeira "tragédia anunciada" nas montanhas mais altas do mundo.
O Cenário Geopolítico da Guerra Fria e a Ameaça Asiática
A metade da década de 1960 era um caldeirão de tensões globais. A corrida armamentista nuclear entre as grandes potências atingia seu ápice, e a entrada da China no clube nuclear em 1964 alterou dramaticamente o equilíbrio estratégico. Washington via com apreensão o desenvolvimento de mísseis balísticos chineses, percebendo uma lacuna crítica em sua capacidade de vigilância. A necessidade de monitorar de perto os testes e o progresso bélico chinês tornou-se uma prioridade máxima, justificando até mesmo as operações mais extremas e arriscadas em territórios inóspitos.
A Audaciosa Operação na Nanda Devi
Foi nesse contexto de urgência estratégica que a CIA concebeu a 'Operação Bluestar', visando o cume da Nanda Devi, uma das montanhas mais desafiadoras do Himalaia indiano, com seus imponentes 7.816 metros de altitude. A equipe era composta por alpinistas de elite americanos, recrutados sob disfarce, que carregavam consigo um equipamento de monitoramento avançado. Disfarçado como tecnologia de exploração oceânica e espacial, o verdadeiro "espião" era, na verdade, um gerador termoelétrico de radioisótopos (RTG) alimentado por plutônio-238, projetado para alimentar sensores que interceptariam telemetria de testes de mísseis chineses. A ideia era instalar esta sofisticada estação de escuta no topo, criando um ponto de vigilância inigualável sobre a região.
A Tempestade, o Abandono e o Destino Incerto do Dispositivo
Em 1965, durante a fase final da escalada, a equipe enfrentou uma violenta tempestade de neve a poucos metros do cume. A segurança dos alpinistas tornou-se primordial. Diante das condições extremas e do risco de hipotermia e morte, foi tomada a decisão de abortar o ataque final ao cume e, crucialmente, de abandonar o dispositivo RTG em um esconderijo improvisado na montanha, a cerca de 7.500 metros de altitude. A intenção era recuperá-lo na primavera seguinte. Contudo, uma expedição subsequente, em 1966, descobriu que o equipamento, pesando mais de 50 quilos e contendo plutônio-238, havia desaparecido, provavelmente levado por uma avalanche. A montanha havia engolido o espião nuclear, e as buscas iniciais foram infrutíferas.
As Implicações Ambientais e o Legado do Segredo
O desaparecimento do gerador nuclear desencadeou uma crise silenciosa. O plutônio-238, com sua meia-vida de 87,7 anos, representa um perigo radioativo de longa data. Existe a preocupação de que o material possa eventualmente se fragmentar e contaminar as nascentes do Rio Ganges, um rio sagrado e vital para milhões de pessoas na Índia. Apesar de anos de buscas intensas, incluindo outra expedição em 1967 com mais alpinistas e equipamentos sofisticados, o dispositivo jamais foi encontrado. A revelação pública da missão em 1978, inicialmente pelo The New York Times, gerou um escândalo e levantou sérias questões sobre os riscos ambientais e éticos das operações clandestinas da Guerra Fria. O incidente da Nanda Devi permanece como um sombrio lembrete dos custos ocultos da corrida por supremacia global.
A história da missão da CIA na Nanda Devi é um testamento da audácia e do desespero que marcaram a Guerra Fria. O desejo de obter vantagem estratégica levou à execução de uma das operações de espionagem mais perigosas e ambientalmente arriscadas da história. Embora a montanha tenha guardado seus segredos, o espectro do plutônio perdido continua a pairar sobre as á águas do Himalaia, uma "tragédia anunciada" que serve de alerta sobre as complexas e duradouras consequências das decisões tomadas em nome da segurança nacional.
Fonte: https://redir.folha.com.br
